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Sobre ficção, bolhas e design

Designer gosta é de livro bonito. Atire a primeira pedra aquele que nunca comprou um livro pela capa — e nem precisa ser designer para isso acontecer.

 

Assim como muitos amigos meus, apaixonados por papel, investi algum dinheiro em edições pelo visual (RIP Cosac Naify e suas maravilhas editoriais). São aqueles livros que enchem os olhos e aquecem o coração: com ilustrações, papel especial, capa que vira pôster. Adoro esses livros.

 

É inevitável: designers são criaturas visuais. Não adianta lutar contra isso. Nos sentimos mais atraídos por uma edição-portfólio, cheia de pinturas e desenhos do Leonardo da Vinci, do que por ler a história do gênio italiano em formato de biografia tradicional. Biografia é textão. Tem muitas páginas. Dá preguiça de começar, verdade. No entanto, designers não vivem só de edições bonitas ou livros “de figurinha”.

 

Designers também precisam se alimentar de boas histórias.

 

Se você é designer, assim como eu, a sua área de atuação pouco importa. Apaixonado por identidade visual, especialista em aplicativos, desenhista de produtos, estrategista — em todos os casos, você está projetando para pessoas que não são você, indivíduos que você nunca viu antes na vida, com contextos e pormenores desconhecidos.

 

Para criar um produto, seja um site de finanças ou uma bota ortopédica, que vai passar por gente de tudo que é canto, é necessário ter a predisposição e a habilidade de se colocar nos sapatos do outro. De compreender escolhas e gostos que podem diferir (e muito) dos seus.

 

Como reflete a designer Rachel Berger neste texto, a verdade é que não convivemos o bastante com pessoas muito diferentes de nós. Pense no seu círculo de convivência e no quanto o perfil demográfico das pessoas dentro dele é parecido com o seu.

 

Quando foi a última vez que você conviveu com alguém de uma etnia ou orientação sexual diferente da sua? Ou que tenha vindo de uma cidade da qual você nunca tinha ouvido falar antes? Não conviver com diversidade é ruim para o design e, pior ainda, para o nosso crescimento como seres humanos.

 

Um choque de realidade nos faz ver as coisas de outro ângulo. Geralmente acontece quando viajamos, ainda mais para um país menos desenvolvido que o nosso, que passa por dificuldades que temos a sorte de não vivenciar.

 

Contudo, não precisamos atravessar oceanos para expandir os horizontes, dá para começar pequeno.

 

Uma forma muito acessível de conhecer diferentes histórias e contextos é através da leitura de ficção. Ler histórias bem contadas tem um poder maior do que você imagina. Ler ficção, além de ser prazeroso, também nos dá a oportunidade de viajar no tempo e viver situações que não cabem dentro da nossa bolha. Também nos permite dar um tempo da nossa própria história, fugir de leve, passear com novos personagens e cenários.

 

“Um leitor vive mil vidas antes de morrer. Aquele que nunca lê, vive apenas uma.”

— George R.R. Martin

 

São diversos estudos que apontam que ler ficção nos torna mais empáticos.

 

Não sabe o que é isso? No livro Empatia: Sobre a arte de viver, Roman Krznaric a define como a arte de se pôr no lugar do outro e ver o mundo a partir de sua perspectiva.

 

A empatia requer um salto da imaginação, de modo que sejamos capazes de olhar pelos olhos dos outros e compreender as crenças, experiências, esperanças e os medos que moldam suas visões do mundo. Em outras palavras, empatia é a capacidade de estourar a própria bolha.

 

Segundo o psicólogo Keith Oatley, “quando lemos ficção, nos tornamos mais aptos a compreender as pessoas e as suas intenções”. Em um livro de ficção de apenas 100 páginas, você pode mudar a maneira de ver o mundo. Ou nem tanto, pode apenas desenvolver olhos mais atentos e compassivos diante da situação de outras pessoas. Isso, por si só, já é incrível. Você tem acesso a uma ferramenta maravilhosa, e por um preço muito baixo, que pode te tornar um designer mais completo. Por que não usar sempre que possível?

 

“Se acreditarmos que todas as outras pessoas pensam como nós, perdemos a nossa capacidade de empatia. E designers sem empatia não são designers.”

— Rachel Berger

 

No imaginário coletivo (principalmente no das mães), designers são seres que foram tocados por uma luz divina, com imaginação vinda de fábrica. Quem trabalha com criação, sabe que não é bem assim que funciona. Todas as pessoas são criativas. A única diferença é que designers exercem sua criatividade todos os dias.

 

É por isso que acreditamos que ela tem pouco a ver com talento, genética ou saber desenhar: é simplesmente resultado de treino, empenho e incontáveis tentativas. Precisa ser exercitada diariamente, como um músculo: pouco a pouco, ele vai sendo construído. Quanto mais você o utiliza, mais forte ele fica.

 

Mas o que isso tem a ver com ler histórias de ficção?

 

Criatividade é fantasia, invenção. Para colocar novidade no mundo, precisamos reinventar coisas o tempo inteiro. Fazê-las funcionar de um jeito diferente. E, para isso, não dá para viver com os dois pés firmes na realidade todos os dias. Falo por experiência própria, em parte como designer, e também como pessoa pragmática: tenho a tendência a fincar o pé na terra e não tirar mais.

 

Para ativar nosso potencial criativo, é preciso se permitir sonhar. Eis por que adoro ler uma historinha de vez em quando.

 

Neil Gaiman, autor britânico, reforça esse ponto de vista nesta palestra maravilhosa. Nela, ele nos conta que a ficção científica nem sempre foi um gênero aprovado na China. Era artigo raro por lá. Hoje em dia, já é diferente. O que aconteceu para tudo mudar? Os chineses perceberam que eram ótimos para criar coisas, se outras pessoas trouxessem os planos para eles executarem. Eles não possuíam a capacidade de inovar e de inventar por si sós. Não imaginavam. Ao enviar pesquisadores para as empresas mais inovadoras do mundo nos EUA (Google, Apple, Microsoft) para entender como elas faziam o que faziam, os chineses aprenderam que grande parte de quem trabalhava lia ficção científica na adolescência.

 

Consegue ver a relação?

 

“Todos nós — adultos e crianças, escritores e leitores — temos a obrigação de sonhar acordado. Nós temos a obrigação de imaginar. É fácil fingir que ninguém pode mudar as coisas, que nós estamos em um mundo em que a sociedade é gigantesca e o indivíduo é menos que nada […] Mas a verdade é que indivíduos mudam o mundo o tempo todo, indivíduos constroem o futuro e eles fazem isso imaginando que as coisas podem ser diferentes.”

— Neil Gaiman

 

Se designers não vão sonhar com novos mundos, então quem vai?

 

***

 

Buscando sugestões de leitura?

Aqui tem algumas.

 

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Quase Memória (Carlos Heitor Cony) — É uma história entre a realidade e a ficção. Cony, jornalista brasileiro, a escreveu baseado nas memórias de seu pai, Ernesto Cony, um homem de comportamento e hábitos singulares. Motivado pelo recebimento de um pacote misterioso, ele conta vários “causos” da infância até a vida adulta, em que o pai o ajudou, o fez passar vergonha, o divertiu e deixou saudades. Tive a sorte de ler esse livro quando ele foi leitura obrigatória para o vestibular. É um dos meus preferidos e quase morri de felicidade quando recebi uma edição (linda, é claro) da TAG Livros em casa no ano passado.

 

Logo na primeira parte do livro, intitulada “Teoria geral do quase”, encontramos a informação: “Os personagens reais e irreais se misturam, improvavelmente, e, para piorar, alguns deles com os próprios nomes do registro civil. Uns e outros são fictícios”. O autor não está preocupado em avaliar o que é deliberadamente inventado ou suposto. Ele se diverte no limiar entre a ficção e a não ficção, provocando seu leitor a imaginar, mas nunca a descobrir. Não há razão para posicionar ou mesmo enclausurar esse livro em algum gênero. Deixe-o como *quase* crônica, *quase* reportagem, *quase* ficção. Assim ele está completo. (Texto do livrinho da TAG).

 

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Extraordinário (R. J. Palacio) — Auggie é um menino de 10 anos que nasceu com uma síndrome rara que lhe conferiu uma deformidade facial difícil de ignorar. Agora ele está indo para uma escola pela primeira vez. Não fique com medo de ler pensando que é muito sofrimento. Na verdade, é. Mas também é muito lindo, escrito da perspectiva das crianças que fazem parte dessa história. Esse livro vai te fazer ser uma pessoa mais gentil.

 

“Sei que não sou um garoto de dez anos comum. Quer dizer, é claro que faço coisas comuns. Tomo sorvete. Ando de bicicleta. Jogo bola. Tenho um Xbox. Essas coisas me fazem ser comum. Por dentro. Mas sei que as crianças comuns não fazem outras crianças comuns saírem correndo do parquinho. Sei que os outros não ficam encarando as crianças comuns aonde quer que elas vão.

 

Se eu encontrasse uma lâmpada mágica e pudesse fazer um desejo, pediria para ter um rosto comum, em que ninguém nunca prestasse atenção. Pediria para poder andar na rua sem que as pessoas me vissem e depois fingissem olhar para o outro lado. Sabe o que eu acho? A única razão de eu não ser comum é que ninguém além de mim me enxerga dessa forma.”

 

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Precisamos falar sobre o Kevin (Lionel Shriver) — Não tem outra palavra para descrever a não ser horripilante. É um livro que me marcou muito, extremamente bem escrito. Uma história de ficção baseada em vários acontecimentos reais.

 

“Ao sacudir o leitor entre culpa e empatia, retribuição e perdão, Precisamos falar sobre o Kevin discute casamento e carreira; maternidade e família; sinceridade e alienação. Denuncia o que há com culturas e sociedades contemporâneas que produzem assassinos mirins em série ou pitboys. Com isso, a autora nos carrega em um thriller psicanalítico onde não se indaga quem matou. Revela quem e o que morreu enquanto uma mãe moderna tenta encontrar respostas para o tradicional ‘onde foi que eu errei?’ Ao discutir a culpa na criação de um monstro, a narradora desnuda assombrada uma outra interdição atávica: poderíamos odiar nossos filhos?” (Trecho da orelha do livro).

 

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O Retrato de Dorian Grey (Oscar Wilde) — O Retrato de Dorian Grey é uma obra-prima que foi escrita no ano de 1890 (“apenas” 129 anos atrás), mas que conversa muito com o século XXI. Que temáticas poderiam ser mais contemporâneas do que a obsessão pela própria imagem e a vontade de se manter eternamente jovem? A escrita do Oscar Wilde é viciante e um tapa na cara. Muita crítica social e ensinamentos para a vida que aparecem no meio da história do Dorian Grey, que fez um pacto maligno para se manter eternamente jovem.

“O objetivo da vida é o autodesenvolvimento; é perceber, com perfeição, a própria natureza… é para isso que estamos aqui, cada um de nós. Mas, hoje em dia, as pessoas têm medo de si próprias. Esqueceram-se da mais elevada das obrigações, a obrigação que devemos a nós mesmos. Mas, é claro, são caridosas. Alimentam os famintos, vestem os mendigos. Suas próprias almas, entretanto, sentem fome, estão nuas.”

 

 

 

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